Na reportagem que me dediquei no post anterior, uma coisa me chamou a atenção. A frase dizendo que os médicos sofrem assédio da industria farmacêutica através dos chamados "propagandistas".
Eu fui propagandista. Numa época em que o glamour da função começava a decair. Nos anos 60,70 e começo dos 80, ser propagandista não era fácil, como ainda não é hoje. Mas tinha um que ascenção social. Eram poucos laboratórios que tinham força de vendas. E as premiações eram boas.
No fim dos anos 80 e 90, ser propagandista ainda era bom, mas com salários menores e a exigência de se ter pelo menos iniciado uma faculdade. Mesmo assim, a remuneração era boa, dava para ter um bom carro (escort era o sonho de consumo) e se aventurar a ser classe média, com direito a pizza a cada 15 dias. E muito treinamento para desenvolver o conhecimento.
Foi nessa época, em 1989 que eu consegui de forma inusitada me tornar propagandista. Antes de trabalhar na industria, eu achava que o propagandista era um caixeiro viajante que só sabia deixar amostra grátis no consultório e uns brindes na mesa da secretária. Quando me dei por conta da quantidade de informação que se tinha que saber para dialogar com um médico foi um choque. Tinha que estudar...e muito...muito mesmo. Mas eu gostava daquilo. E foi só quando eu me tornei propagandista foi que eu vi não se tratava apenas de uma função, mas de uma profissão.
Ou seja, como profissão era necessário ter uma formação profissional, que era obtida através de intenso treinamento. Ainda é assim hoje, eu imagino.
Pois é. Uma profissão, regulamentada pelo ministério do trabalho, que tem alguns privilégios,como o fato de não ter um relógio de ponto, e poder ser o planejador de seu dia de trabalho. Mas há uma pequena maldição, que pode se tranformar em pesadelo. O propagandista tem que trabalhar na rua e em casa. Quando se é solteiro, tudo bem, da para ficar até a meia noite fazendo relatórios e preparando o material para o dia seguinte. Quando você tem família, você precisa ter mais energia para mexer no que tem que mexer depois que os filhos foram dormir e você já deu parte da atenção que sua esposa merece.
Mas por que eu estaria falando isso tudo? Bem por que na reportagem do Jornal da Band, o propagandista foi retratado como um aprendiz de marginal, que faz algo imoral, ilegal, feio. É, o propagandista entrega amostra para os médicos, por isso o remédio que você toma é caro, como disse o estudante de medicina.Nada mais nonsense.
Mas o que feriu a dignidade do profissional, foi ver uma pessoa de costas sendo entrevistada pelo jornalista Rodrigo Hidalgo: "Esse homem é propagansta a quatro anos e ele fala o que os médicos querem para receitar os remédios" e aí emenda uma pergunta : "O que os médicos pedem para o propagandista prescreverem os medicamentos do seu laboraório?" e o "sem noção" responde "ah pedem jantares, congressos, passeios."
Claro que a industria farmacêutica quer o receituário médico, é por isso que a maioria dos propagandistas levantam as 5:30 da manhã e vão para os seus pontos de encontro nos hospitais. É para ter contato com o médico e convencê-lo a, quando ele tiver pacientes com determinada doença ou sintoma, prescrever o produto da empresa que o propagandista representa. Isso é errado? Isso é crime?
O médico pede o que ele quiser... jantar, almoço, café da manhã, carro, avião, iate, sei lá o que. Pede para o propagansita, pro papa, pro papai-noel. E eu pergunto: E daí?
A experiência me mostrou que a maoria dos médicos que muito pedem, são justamente aqueles que menos prescrevem, por que a maioria dos bons médicos, confiam em seu receituário como um patrimônio, da mesma forma que confiam nas coisas que aprenderam sobre ética e justiça e relacionamentos.
Houve abusos no passado. E muita gente quis se aproveitar daquela situação.
Com a ANVISA muita coisa mudou hoje.
Não ha verbas de marketing como havia antes. O estagiário é quem visita o médico fazendo parte do trabalho que propagandista profissional fazia antigamente. Uma bolsa auxílio e menos dispendioso que prêmios.
Nada contra quem tem que trabalhar. Mas respeito é bom, conserva muita coisa, inclusive a honra. O mesmo respeito que é dado ao médico, ao balconista, ao jornalista, ao garçom enfim, a todo o profissional sério, deve ser dado ao propagandista.
Na reportagem, não foi dado o devido respeito a um profissional que ja foi a cara da industria farmacêutica, e hoje aparece de costas como uma testemunha acuada ou como um cumplice de um crime. Daqui a 4 dias, dia 14 de Julho se comemora o dia do Propagandista.
Será que as caras vão ser mostradas?
Continuamos amanhã.
Edson Luis de Brito
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