Na realidade eu não cheguei a ver a série intitulada "Receita Marcada", diretamente da TV Bandeirantes, emissora que considero séria, mas vi através de um link ( http://www.band.com.br/jornaldaband/conteudo.asp?ID=92062&CNL=1) recebido de um amigo. Decidi olhar, afinal é sempre bom saber o que acontece.
A primeira frase me deixou perplexo: "EXCLUSIVO - Hotéis de Luxo, comida boa e passeios com a família. Esses são alguns presentes que a Industria Farmacêutica distribuem aos médicos para que eles receitem seus remédios".
A exemplo da série do Jornal da Band, vou expressar minha opinião baseado na vivência que tenho na industria farmacêutica. Não quer dizer que vou dizer que 100% do que se faz no ramo é correto, mas seguramente usar os meios éticos para divulgar seus produtos, marcas e serviços não fere o direito da industria, nem da classe médica e nem do consumidor. Isso por que a industria farmacêutica é um negócio.
E como negócio depende de vendas lucrativas. Se você que está lendo não for da industria, fique sabendo de uma coisa. O negócio farmacêutico é feito para se obter lucro, à partir da doença que você tem e de quanto você esteja disposto ou possa pagar para tratá-la. Secamente é isso.
Como o lucro também é a razão de existir a industria da moda, a industria alimentícia, a industria de cosmético. Quanto você está disposto a pagar para se vestir bem? Quanto você está disposto a pagar para comer com mais facilidade? Quanto você está disposto a pagar para se sentir mais bonito, jovem ou limpo?
A diferença é que tratar uma doença, e cobrar por isso pode parecer cruel. Pode parecer que se está aproveitando de um sofrimento individual para se obter dinheiro facilmente.
Acredite. Não é crueldade. É a realidade. Saúde se tornou um bem precioso e escasso no mundo de hoje e conservá-la não é barato, nem nunca foi, e nunca será. Sempre haverá um sacrifício a ser feito. Mas esse não é o tema de hoje.
Sigamos.
Suponhemos que eu seja de outro ramo de negócio. Que eu trabalhe com por exemplo café.
Eu vou ao supermercado e convido o dono do supermercado para um jantar num hotel 5 estrelas num resort. E convido também outros donos de supermercados para o mesmo resort. Isso por que minha empresa inventou uma nova forma de tomar café. Por isso meu pacote de café vai custar mais caro que os outros tipos, blends, sei lá o jargão desse segmento. Mas eu quero que todos experimentem meu café novo, para poder otimizar meu esforço de publicidade, quando eu colocar meu comercial na televisão.
Passamos 2 dias agradáveis no hotel, todos tomam café, passeiam um dia as minhas custas.
Os donos de supermercado agora podem recomendar ao seu pessoal de compras que abasteçam a gondôla do supermercado com meu café.
Haverá um mocinha que ofercerá meu café em cada loja. E quem toma, compra pelo menos um pacote, por que o café é muito bom.
Alguem julgaria os donos de supermercados, ou a mim, ou quem quer que seja por ter levado eles para um final de semana regado a hotel de luxo, comida boa e passeio com a família? Claro que não. Café é um prazer. Remédio não. E é aqui que está a diferença. Ninguém quer gastar com a compra de remédio. Mas todo mundo gostaria de ter em sua adega aquela safra especial de um vinho francês, ou a garrafa de um scotch 12 anos, ou mesmo aquela cachaça dourada, mesmo que pagasse por eles algumas centenas de reais.
Remédio não dá status. "Olha, estou com diabetes e meu médico me receitou um medicamento top de linha. Agora sim posso dizer que subi na vida. Estou com uma doença que pode me matar, mas eu vou viver com ela a vida inteira por que eu tenho o remédio e posso pagar por ele, ha ha ha". Claro que não acontece assim.
Mas a forma como o medicamento é feito, é da forma como é feito a maioria dos produtos industrializados (inclusive paga-se IPI por isso), com alguns agravantes críticos. Há vários orgãos fiscalizadores, o nível de tecnologia é alto, o grau de especialização dos profissionais é alto, a cadeia produtiva é longa e está sujeita a muitas variáveis. A logística é complexa e por aí vai.
E tem o marketing, óbviamente, que é responsável em fazer com que todo esse trabalho dê o lucro necessário para que o negócio não quebre. Nem vou falar aqui sobre pesquisa e desenvolvimento, pelo menos não nesse momento.
E o que o marketing faz? Faz o que deve fazer com os recursos que lhe cabem, ou seja, com a verba destinada, construir um ambiente para que o consumidor adquira o produto. Isso, sem ferir uma ligislação que lhe proíbe de fazer muitas coisas que outros segmentos fazem sem problemas.
Como tudo que é promovido em termos de medicamentos tarjados, deve ser feito em ambiente científico, a industria promove simpósios, onde os conflitos de interesse devem ser expressos quando o palestrante tem algum envolvimento com algum fabricante de medicamento, ou seja por ele patrocinado. Como em qualquer evento, sempre há um espaço livre, e cada um faz o que quiser. E a industria com o sentido de promover a integração entre os participantes, lhes da opções de passeio. Há algum mal nisso? Honestamente não vejo. Mas todo paciente gosta de saber que seu médico é um profissional atualizado, que vai a pelo menos 2 congressos internacionais por ano, que tem artigos científicos publicados e que atenda seu convênio, que ele, o paciente, escolhe pelo preço.
Sem recursos não se pode fazer medicina de boa qualidade, não se pode ter medicamentos de ponta para ser bem sucedido no tratamento. E de onde vem o dineheiro? De onde sempre veio. Do consumidor, ou da demanda como gostam de dizer os profissionais da industria. Sem geração de demanda, não tem geração de recursos.
Nessa primeira parte, que encerro por aqui, queria chamar a atenção de todos para o fato de que se saúde é um bem precioso, é responsabilidade individual cuidar da própria.
Amanhã eu continuo.
Edson Luis de Brito
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